Ao reunir as vozes de especialistas de empresas que atuam diretamente no desenvolvimento de insumos para tintas, fica evidente que o setor de especialidades químicas vive uma fase de profunda transformação. A sustentabilidade deixou de ser um diferencial e passou a ser um imperativo estratégico, impulsionando a criação de aditivos multifuncionais, formulações de baixo VOC, tecnologias bio-based e soluções que conciliam alta performance com responsabilidade ambiental. Apesar dos avanços, os desafios permanecem como regulamentações ambientais mais rígidas, volatilidade na cadeia global de suprimentos, concorrência acirrada e flutuações nos preços das matérias-primas, no entanto, o Brasil, com sua crescente capacidade de inovação, está cada vez mais preparado para liderar esse movimento seja por meio de parcerias estratégicas, investimentos em P&D ou pela adoção voluntária de padrões globais
Por Gabriela Lozasso
O mercado de especialidades químicas para formulações de tintas vive um momento de transformação acelerada, impulsionado por demandas globais por sustentabilidade, segurança e alto desempenho. A busca por insumos de menor impacto ambiental, tecnologias base água e aditivos multifuncionais tem se consolidado como tendência dominante, redefinindo os critérios de inovação no setor. O Brasil, com sua ampla disponibilidade de matérias-primas renováveis, desponta como um território fértil para o desenvolvimento de soluções alinhadas às exigências internacionais, e os fornecedores de insumos têm desempenhado papel estratégico nesse avanço. Para Carolina Sampietri, assistente técnica da Miracema-Nuodex, o desenvolvimento de aditivos sustentáveis, produzidos a partir de fontes renováveis e com baixa toxicidade, é hoje uma das principais apostas do setor. “A sustentabilidade tem se consolidado como um diferencial competitivo, e já observamos fabricantes se antecipando às exigências internacionais com soluções compatíveis com essas tendências”, afirma. Fernando Rosa, gerente técnico da Aromat, complementa ao destacar a substituição de matérias-primas restritivas, como PFAS e solventes de alto VOC, e o crescimento das tecnologias base água como movimentos globais que vêm ganhando força. Segundo ele, “a digitalização no desenvolvimento de tintas, com uso de modelagem preditiva e dados avançados, também tem contribuído para acelerar a inovação e otimizar processos”. Felipe Salvador, diretor operacional da Saber Química, reforça que o Brasil acompanha esse movimento de forma gradual, mas com avanços significativos. “As regulamentações mais rígidas e a demanda crescente por soluções sustentáveis e de alto desempenho têm impulsionado o setor, abrindo espaço para a ampliação do portfólio de matérias-primas e o fortalecimento de parcerias estratégicas”, observa.
Rafael Gonçalves, gerente técnico-comercial da Lumasa, observa que o setor de tintas vive um momento de transformação impulsionado por tendências globais que priorizam sustentabilidade, segurança regulatória e desempenho técnico. Entre os principais movimentos observados estão o avanço de soluções bio-based, como os lignosulfonatos, o crescimento dos sistemas aquosos com baixo VOC, a busca por biocidas com perfis regulatórios mais brandos e o desenvolvimento de modificadores reológicos que aliam performance e responsabilidade ambiental. No contexto brasileiro, Rafael destaca que o país possui uma vantagem competitiva importante: o acesso facilitado a matérias-primas por meio de parcerias estratégicas. No entanto, ele ressalta que ainda é necessário acelerar a harmonização regulatória e a adoção de tecnologias mais modernas para acompanhar o ritmo das exigências globais. “O Brasil tem potencial, mas precisa avançar em regulamentações e na incorporação de soluções inovadoras para se manter competitivo”, afirma.
Essa necessidade de alinhamento com padrões internacionais também é destacada por Ricardo Motta Dittmer, diretor técnico da Megh, que aponta a sustentabilidade como o eixo central das transformações em curso. Segundo ele, o Brasil tem buscado seguir as tendências dos mercados mais avançados, como Europa e Estados Unidos, especialmente no que diz respeito à adoção de insumos menos agressivos e processos mais limpos. A crescente pressão por conformidade ambiental e eficiência técnica tem impulsionado fabricantes a repensarem suas formulações e estratégias de inovação. André Russo, gerente de desenvolvimento de negócios da Adexim-Comexim, reforça que o mercado de tintas industriais tem demonstrado uma preocupação cada vez maior com a performance dos produtos, especialmente em segmentos como tintas anticorrosivas, líquidas e em pó. “O cliente final busca controle rigoroso de qualidade e retorno sobre investimento”, afirma. O executivo observa que as tintas anticorrosivas evoluem com foco em desempenho superior e cuidados ambientais, enquanto as tintas líquidas exigem insumos com maior compatibilidade química para garantir adesão e acabamento. Já as tintas em pó e eletrostáticas continuam em expansão, oferecendo menor custo, alta rentabilidade e excelente durabilidade.
Desafios e inovação diante de um mercado em constante evolução
Apesar dos avanços, os desafios permanecem. A pressão regulatória para substituição de moléculas de alta toxicidade, a instabilidade nos custos logísticos e a necessidade de adaptação às novas normas ambientais exigem das empresas agilidade e capacidade de inovação contínua. Ainda assim, os executivos são unânimes em enxergar oportunidades promissoras: desde o crescimento expressivo das tintas base água até o desenvolvimento de soluções multifuncionais e customizadas, capazes de agregar valor técnico e ampliar a competitividade das marcas no mercado nacional e internacional.
A inovação tem se consolidado como o principal motor de competitividade no setor de especialidades químicas para tintas, e as empresas brasileiras estão cada vez mais engajadas em antecipar tendências globais. Robson Torres, especialista técnico-comercial da Química Anastacio, destaca que o investimento contínuo em pesquisa e desenvolvimento, aliado a parcerias estratégicas com fornecedores internacionais e centros de pesquisa, tem sido essencial para criar soluções eficientes, multifuncionais e compatíveis com diferentes sistemas de formulação. “Cada inovação precisa trazer ganhos reais em sustentabilidade, atender aos requisitos regulatórios e oferecer desempenho superior”, comenta Torres. Essa visão é compartilhada por Amadeu Paiva, gestor de produtos e marketing técnico da Braschemical, que observa uma forte convergência entre sustentabilidade, alta performance e multifuncionalidade. O portfólio da empresa já contempla tecnologias livres de VOC, formaldeído e TMP, além de soluções bio-based e voltadas para eficiência energética, como sistemas cool roof, efeito self healing e retardância de chamas não halogenada. “O grande desafio está em conciliar sustentabilidade, custo competitivo e alta performance, especialmente diante de um mercado em constante evolução regulatória e tecnológica”, pontua Paiva. Marcelo Nogueira, general manager da Kryll, acrescenta que o Brasil apresenta um espectro bastante receptivo à inovação, embora a adoção de novas tecnologias exija tempo e esforço. Para ele, as oportunidades estão em ampliar o uso das especialidades químicas em diferentes aplicações, buscando produtos com melhor desempenho e adaptabilidade. “É preciso acompanhar de perto a direção da evolução dos novos materiais, pois ela define os rumos da inovação no setor”, observa. Em comum, os três especialistas apontam que o Brasil está atento às agendas internacionais de regulamentação, que pressionam pela redução de solventes tóxicos, VOCs e substâncias perigosas. Apesar de contar com um dos polos tecnológicos de coatings mais relevantes do mundo, o país ainda enfrenta desafios relacionados a custos e disponibilidade de matérias-primas; e a busca por maior produtividade e escalabilidade, sem comprometer a estrutura atual das empresas, também se impõe como um fator crítico para a competitividade.
A evolução das especialidades químicas para tintas tem ganhado novos contornos com a incorporação de tecnologias digitais, formulações ecoeficientes e soluções funcionais. Marcos A. Bresolin, CEO da Additiva, destaca que o setor vive uma convergência entre sustentabilidade e inovação tecnológica. “As tintas funcionais, com propriedades antimicrobianas, autolimpantes ou retardantes de chamas, estão em ascensão, assim como os aditivos multifuncionais que reduzem etapas e insumos nas formulações”, explica. Ele também ressalta o papel crescente da inteligência artificial no desenvolvimento de novas soluções e na gestão da cadeia de suprimentos, apontando que o Brasil, apesar de ainda depender de importações de tecnologias de ponta, apresenta grande potencial de destaque regional graças à sua base industrial robusta e à expansão dos mercados de construção, automotivo e infraestrutura.
Fabiana Tanabe, coordenadora técnica de especialidades da Bandeirante Brazmo, reforça que a sustentabilidade é o eixo central das tendências globais, com foco em insumos de baixo VOC, maior segurança no uso e menor impacto ambiental. Além disso, há uma valorização crescente de acabamentos diferenciados, que agregam valor estético e funcional às tintas. “O Brasil ocupa a quarta posição entre os maiores produtores de tintas do mundo, o que nos dá um bom potencial de liderança. Mas para isso, é essencial avançar em políticas públicas, investimentos em PD&I, melhoria regulatória e apoio à competitividade”, menciona a coordenadora técnica, destacando gargalos como tributação, logística e acesso a matérias-primas. Na mesma linha, Célio Augusto Valenga, do Departamento Técnico Comercial da Biofragane, observa que a sustentabilidade domina a pauta global e já mobiliza os fabricantes brasileiros na busca por matérias-primas mais responsáveis. Para ele, os desafios estão em estruturar uma cadeia produtiva confiável para insumos de origem renovável, garantindo estabilidade de fornecimento e adaptabilidade às exigências técnicas. “Todo desafio é acompanhado de um mar de oportunidades”, ressalta Valenga, sinalizando que o setor está diante de um momento estratégico para consolidar práticas sustentáveis sem abrir mão da performance.
A busca por soluções sustentáveis, eficientes e adaptáveis segue como fio condutor das transformações no mercado de especialidades químicas para tintas. Empresas como Polystell, BYK e Grace têm se destacado por unir inovação técnica com responsabilidade ambiental, cada uma com estratégias complementares que refletem o amadurecimento do setor.
Na Polystell, o compromisso com a sustentabilidade vai além do discurso. Jaqueline Scapolatempore, coordenadora de vendas e marketing, e Gilvan Félix, gerente de suporte técnico e laboratório de aplicação, explicam que a empresa já realiza inventário de emissões de gases de efeito estufa (GEE), possui planos de redução de CO₂, monitora VOC e adota práticas de gestão de resíduos em parceria com fornecedores. Segundo eles, lançamentos de produtos exemplificam essa abordagem da empresa, ao combinar inovação técnica com menor impacto ambiental.
André Moreno Fernandez, gerente de laboratório de aditivos para tintas da BYK, reforça que matérias-primas de fontes renováveis, eficazes mesmo em baixa dosagem, têm ganhado destaque por atenderem simultaneamente às exigências regulatórias e à necessidade de redução de custos. Para ele, os aditivos versáteis são cada vez mais valorizados pelos formuladores, justamente por sua capacidade de atender múltiplas demandas técnicas e ambientais. “O desafio está em desenvolver soluções que conciliem alto desempenho com custo-benefício, sem comprometer a segurança e a sustentabilidade”, analisa. Já André M. C. Villani, general sales manager da Grace para a América Latina, destaca a transição dos sistemas de revestimento à base de solvente para sistemas à base de água, além do crescimento das formulações sem solventes. O executivo da Grace aponta que sílicas multifuncionais têm sido cada vez mais procuradas por sua capacidade de simplificar processos e reduzir o volume de matérias-primas. “O foco está no desempenho do filme final, seja em revestimentos decorativos ou industriais, com exigências cada vez maiores em resistência química, controle de brilho e durabilidade”, explica Villani.
Fechando esse amplo panorama sobre o mercado de especialidades químicas para tintas, Leandro Lemos Alves, gerente de novos negócios da Syensqo, destaca que as megatendências globais estão cada vez mais centradas em produtos de origem renovável, redução da pegada de carbono e soluções que promovam eficiência energética, sem perder de vista a sustentabilidade econômica, onde logística eficiente e fornecimento confiável são fatores decisivos. “Embora a regulação no Brasil avance de forma mais lenta, vemos empresas locais adotando voluntariamente padrões europeus e norte-americanos, acelerando a transição para tecnologias mais limpas e modernas”, observa Alves. Ele também reforça que o Brasil não é apenas um consumidor, mas um verdadeiro hub de inovação e produção, com centros de pesquisa robustos e capacidade industrial relevante.
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