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28/08/2026

Conflito no Oriente Médio testa a cadeia química do Brasil

Conflito no Oriente Médio testa a cadeia química do Brasil

by Tintas e Vernizes / quarta-feira, 15 abril 2026 / Published in Atualidades, Destaque

A tensão no Oriente Médio aumenta a volatilidade nos mercados de energia e insumos petroquímicos, com potenciais impactos sobre custos, prazos e logística. Abiquim e Abrafati avaliam que o Brasil mantém condições para preservar o abastecimento, mas alertam que a dependência de matérias-primas importadas e a pressão sobre o petróleo tornam o cenário desafiador e demandam monitoramento constante

 

A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã desde 28 de fevereiro desencadeou uma nova onda de incertezas sobre a economia global, reacendendo temores sobre possíveis rupturas nas cadeias de suprimentos de petróleo, gás natural, fertilizantes e insumos petroquímicos. Em um cenário em que o Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% da oferta global e 25% do comércio marítimo mundial de petróleo, qualquer instabilidade prolongada na região tende a pressionar preços, elevar custos logísticos e gerar volatilidade cambial.

Para setores industriais altamente dependentes de matérias-primas químicas — como o de tintas — esse contexto poderia representar um risco significativo. No entanto, apesar da turbulência internacional, o Brasil ainda mantém certa estabilidade e segurança no abastecimento de alguns insumos essenciais, graças à força estrutural da indústria química nacional, à diversidade de fornecedores internacionais e à capacidade de resposta rápida diante de choques externos.

A Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) acompanha atentamente os desdobramentos do conflito e reforça que, até o momento, não há qualquer ruptura operacional nas cadeias de suprimento que atendem ao Brasil. Os impactos observados ocorrem principalmente por vias indiretas — energia, petroquímicos básicos, fertilizantes, logística e câmbio — e ainda não comprometem a oferta de produtos químicos utilizados pela indústria de tintas. A elevada ociosidade do setor químico brasileiro, atualmente em torno de 40% da capacidade instalada, funciona como uma reserva estratégica capaz de ampliar rapidamente a produção interna caso seja necessário substituir importações ou suprir eventuais lacunas. Esse fator, somado à maturidade tecnológica do parque industrial e à ampla diversidade de origens internacionais, garante resiliência mesmo em cenários de instabilidade geopolítica.

Segundo novos dados da Abiquim, mesmo em um cenário hipotético de queda drástica das importações, a indústria química brasileira possui capacidade ociosa suficiente para suprir a demanda doméstica. Em 2025, a ociosidade média do setor atingiu 41% — o pior patamar em 30 anos — chegando a 45% em intermediários para plásticos. Há ampla capacidade disponível na produção de resinas termoplásticas como PE, PP e PVC, reforçando que não existe insuficiência estrutural de oferta no país.

O presidente-executivo da Abiquim, André Passos Cordeiro, resume o momento com precisão ao afirmar que “o conflito pressiona custos globais relevantes, especialmente em energia e fertilizantes. No caso dos produtos químicos, porém, o Brasil dispõe de capacidade industrial suficiente para preservar o abastecimento do mercado”. A declaração dele reforça a confiança do setor na capacidade nacional de enfrentar choques externos sem comprometer a segurança produtiva, ao mesmo tempo em que evidencia a importância de políticas industriais estruturantes para reduzir vulnerabilidades históricas, como a dependência de nafta petroquímica importada e de fertilizantes nitrogenados.

O setor de tintas também monitora de perto os desdobramentos do conflito. Segundo o presidente-executivo da Abrafati, Luiz Cornacchioni, “a Abrafati acompanha com preocupação as consequências do atual conflito no Oriente Médio, assim como as demais incertezas no cenário global. A indústria de tintas do Brasil tem uma alta dependência de matérias-primas importadas, muitas delas de origem petroquímica. Assim, entraves à circulação de mercadorias (como hoje existe no Estreito de Ormuz) e oscilações relevantes no preço do petróleo podem impactar bastante o nosso setor, em termos de prazos de chegada de mercadorias e de custos, envolvendo possíveis aumentos do frete marítimo, das matérias-primas e mesmo do frete rodoviário dentro do país”, considera.

Cornacchioni acrescenta que não há motivo para pânico, mas a situação exige atenção. “A indústria de tintas aprendeu muito com as dificuldades de abastecimento de matérias-primas vivenciadas durante a pandemia de Covid-19, diversificando fornecedores e estudando novas formulações. Mas é fato que, não existem hoje substitutos no Brasil para muitas dessas matérias-primas que são importadas e será preciso continuar comprando-as do exterior”, analisa.

 

Epicentro da pressão global no mercado de energia

O Irã produz cerca de 3,5 milhões de barris de petróleo por dia, e qualquer restrição prolongada ao tráfego no Estreito de Ormuz tende a elevar o preço do barril Brent. Para o Brasil, isso significa aumento do custo da nafta petroquímica — principal insumo da indústria química nacional — e impactos diretos sobre a produção de eteno e propeno, fundamentais para a fabricação de resinas, solventes e aditivos utilizados em tintas. Embora o país seja exportador líquido de petróleo, permanece importador líquido de derivados como diesel, GLP e nafta, o que o torna vulnerável a oscilações internacionais. A Abiquim estima que uma alta de US$ 20 no Brent pode reduzir o spread petroquímico entre 10% e 25%, pressionando margens industriais e reduzindo competitividade, especialmente porque o Brasil não dispõe da mesma vantagem energética de países com gás natural abundante e barato, como Estados Unidos e nações do Oriente Médio.

Além dos petroquímicos básicos, há impactos potenciais sobre intermediários químicos e especialidades. O Irã é exportador relevante de metanol, formaldeído, resinas termofixas, MTBE e ácido acético — insumos fundamentais para a produção de resinas e aditivos utilizados em tintas decorativas, industriais e automotivas. Caso haja restrição prolongada da oferta desses produtos, os preços globais tendem a subir, pressionando custos de fabricantes brasileiros. Ainda assim, a estrutura produtiva nacional e a diversidade de fornecedores internacionais reduzem significativamente o risco de desabastecimento, garantindo que o setor de tintas continue operando com normalidade.

 

Importações: fenômeno econômico, não logístico

A Abiquim reforça que o aumento recente das importações de resinas, que saltaram de 25 – 30% do consumo nacional histórico para cerca de 46% entre 2024 e 2025, não tem relação com o conflito no Oriente Médio. Trata-se de um movimento econômico, impulsionado por práticas predatórias de preços, e não por limitações logísticas. As resinas importadas pelo Brasil vêm majoritariamente dos Estados Unidos, China, outros países asiáticos e do Egito, regiões fora da zona de conflito.

A entidade também esclarece que o Brasil possui capacidade para produzir praticamente todos os grades de PE, PP e PVC utilizados no país. Quando há importação de resinas especiais, isso ocorre por decisão comercial dos transformadores, por homologações específicas ou estratégias de custo, e não por limitação técnica da indústria nacional.

 

O mito do desabastecimento: lições da pandemia

A Abiquim relembra que, mesmo durante a pandemia de Covid-19 não houve ruptura sistêmica no fornecimento de insumos essenciais. O mercado interno foi atendido pela combinação de estoques nacionais e importações complementares, demonstrando a resiliência da cadeia química brasileira.

 

Preços e competitividade

Sobre especulações de aumentos de preços, a Abiquim reforça que toda a indústria global enfrenta pressões decorrentes da alta do petróleo. Ainda não há dados suficientes para estimar a duração ou intensidade desses impactos, já que o conflito não completou um mês. Historicamente, em momentos de volatilidade, não é o setor químico que captura margens adicionais, mas sim outros elos da cadeia.

 

Elo mais vulnerável: fertilizantes nitrogenados

O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, e o Irã é um dos principais exportadores de ureia e amônia. Desde o início da crise, o preço da ureia no Brasil já subiu mais de 33%, refletindo a volatilidade no Golfo e o aumento do custo do gás natural. Embora fertilizantes não sejam insumos diretos para tintas, esse movimento evidencia como cadeias produtivas interconectadas podem sofrer impactos indiretos.

 

Logística e câmbio adicionam pressão

A instabilidade no Golfo Pérsico tem provocado aumento do frete marítimo, elevação dos prêmios de seguro e reconfiguração de rotas. Para o setor de tintas, isso significa maior atenção aos prazos e custos logísticos, mas não risco de ruptura, graças à capacidade produtiva interna e à diversificação de fornecedores.

Conflitos no Oriente Médio também costumam gerar valorização do dólar, encarecendo importações industriais e investimentos em CAPEX. Ainda assim, a indústria brasileira tem conseguido absorver essas oscilações sem comprometer o abastecimento.

 

Defesa comercial e competitividade

Medidas de defesa comercial têm desempenhado papel importante na preservação da competitividade nacional. A Camex aprovou a inclusão de 37 códigos NCM na Lista de Desequilíbrios Comerciais Conjunturais (DCC), corrigindo distorções provocadas por práticas predatórias de preços. Estudos mostram impacto inflacionário praticamente nulo – 0,009 ponto no IPCA e 0,03 ponto no IPA – evidenciando que a política protege a produção doméstica sem restringir o acesso a insumos.

 

Elo mais vulnerável da cadeia global é o mercado de fertilizantes nitrogenados
O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, e o Irã é um dos principais exportadores de ureia e amônia. Desde o início da crise, o preço da ureia no Brasil já subiu mais de 33%, refletindo a volatilidade no Golfo e o aumento do custo do gás natural — principal insumo para a produção de amônia e ureia. Embora fertilizantes não sejam insumos diretos para tintas, esse movimento evidencia como cadeias produtivas interconectadas podem sofrer impactos indiretos e reforça a necessidade de políticas industriais capazes de reduzir vulnerabilidades estruturais.

A logística internacional também está sob pressão. A instabilidade no Golfo Pérsico tem provocado aumento do frete marítimo, elevação dos prêmios de seguro, cobrança de taxas emergenciais e reconfiguração de rotas, com suspensão temporária de escalas em alguns portos da região. Esse conjunto de fatores eleva custos globais e reduz a previsibilidade das entregas, afetando indústrias que dependem de insumos importados. Para o setor de tintas, isso significa maior atenção aos prazos logísticos e aos custos de importação, mas não risco de ruptura, graças à capacidade produtiva interna e à diversificação de fornecedores.

 

Volatilidade cambial adiciona outra camada de complexidade
Conflitos no Oriente Médio costumam gerar valorização do dólar e desvalorização de moedas emergentes, como o real. Isso encarece importações industriais e investimentos em CAPEX, especialmente equipamentos importados, pressionando custos de matérias-primas utilizadas em tintas e revestimentos. Ainda assim, a indústria brasileira tem conseguido absorver essas oscilações sem comprometer o abastecimento.

Medidas de defesa comercial também têm desempenhado papel importante na preservação da competitividade nacional. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou a inclusão de 37 códigos NCM na Lista de Desequilíbrios Comerciais Conjunturais (DCC), atendendo a pleito técnico da Abiquim. A medida corrige distorções provocadas por práticas predatórias de preços e restabelece condições mínimas de competitividade para a indústria nacional. Estudos mostram impacto inflacionário praticamente nulo – 0,009 ponto no IPCA e 0,03 ponto no IPA – evidenciando que a política protege a produção doméstica sem restringir o acesso a insumos.

 

Abiquim trabalha com três cenários principais para os próximos meses
No cenário mais provável, de conflito limitado, há alta temporária do petróleo, volatilidade cambial moderada e impacto inflacionário controlável. Em um cenário de bloqueio prolongado do Estreito de Ormuz, o Brent pode superar US$ 100, pressionando fertilizantes, nafta e custos logísticos. Já em uma escalada regional ampla, haveria choque energético persistente e redesenho das cadeias globais de suprimento, com impacto severo sobre a indústria química internacional.

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